EX, PREFIXO ATEMPORAL. Ex é prefixo e prefixo é da classe das palavras a mais pobre e dependente porque não se sustenta sozinha. Precisa de outras palavras, precisa de mais gente, ninguém é ex sozinho. Mas juntos podemos ser sozinhos. E juntos podemos nos abandonar, nos matar, assassinar cada centelha do que só eu s...

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Ex, prefixo atemporal

SOBRE: crônica, ex, ex-namorado, Marcela Rangel

Autor: Marcela Rangel

17 de abril de 2014

Ex é prefixo e prefixo é da classe das palavras a mais pobre e dependente porque não se sustenta sozinha. Precisa de outras palavras, precisa de mais gente, ninguém é ex sozinho. Mas juntos podemos ser sozinhos. E juntos podemos nos abandonar, nos matar, assassinar cada centelha do que só eu sou, do que só você é, até ficarmos um, essa entidade criada no imaginário coletivo que, como tudo na vida, um dia vai morrer.

Aí eu vou para um caminho, você para um lado, do lado de outro alguém, quem sabe. E o que passou passa? Ser ex é tarefa das mais difíceis. Mãe, filha, esposa, neta, namorada. Tudo bem, encaro. Mas ocupar esse lugar, não sei se de passado ou um eterno presente, com graça e coerência, é para poucos.

Para que nada nos separa, que nada nos una. O fim me parece inevitável assim como o começo, quando o amor é dos bons. Então o que há de se fazer?

Terá sempre alguma coisa de bela, alguma coisa de gostosa, alguma coisa de interessante, aquele cheiro que só você tem, aquele dia na praia que você disse pela primeira vez que me amava, os presentes, as dedicatórias, as fotos todas e ah, as cartas, que eram em menor quantidade de amor e maior de término, mas ainda assim cheias de sentimento. E o que são cartas de término a não ser declarações de um amor fracassado?

Aliás, o ex é um fracasso? Será a sina dos ex-amantes carregarem a derrota? Considero essa designação extremamente cruel e gosto de pensar que o amor cumpre seu mandato, dita a sua hora e não deixa de ser bonito, assim como a vida, só porque tem fim. Também não me agrada pensar que um amor toma o lugar de outro ou que “cura” outro, como li em algum lugar por esses dias.

Na não linearidade da vida, que teimamos em não curvar, cabe tudo, não é, coração vagabundo? Não precisa ter sobreposição, justa causa, assinar carteira. Embora não me importe em receber o seguro coração partido por alguns meses até me estabilizar.

Um dia perguntei a minha mãe, que amou e separou na mesma proporção, como era possível essa história de esquecer, essa de história de desamar e todo o resto que as pessoas tanto me falavam, e ela disse: “Minha filha, um dia vai ser uma lembrança loooooonge, bem longe, que vai se confundir com outras memórias e ficar ali inteira, mas sem dor.” Eu acreditei. Mamãe não costumava errar nessa coisas de coração, mas dentro de mim pedi para que não acontecesse, embora minha esperança fosse que um dia esse dia de fato chegasse.

Não queria ser esse passado lacrado, que nunca mais será aberto. Não por amor, esperança, fé no destino ou coisa que valha, mas para manter o lugar dele e principalmente o meu lugar. Não suportaria a ideia de ser aquela história que quase não se lembra mais e que foi trancada. Aliás, não sei lidar com isso. De repente, não mais que de repente, arquivamos pessoas, sentimentos e vidas. É preciso seguir em frente, todo mundo me dizia. Mas para onde vai tudo que já se viveu?

Se me perguntarem digo que ex não é presente, porque o presente carece de combustível, seja ódio, raiva, carinho ou amor. Ex também não é passado porque passado é uma história fechada, que não volta em pequenos detalhes. Ex tampouco é futuro, por mais que um dia retorne, porque ex é figura parada no tempo, congelada do jeito que a deixamos e que nunca mais voltará a ser.

Se me perguntarem, se insistirem nesse assunto, digo que ex é cicatriz, ora fechada, ora aberta, por vezes com casca. Uma ferida mutante, que pode ser lembrança de estripulia boa, queimadura doída e de pequenas mortes, aterrorizantes e boas –  feito orgasmo – , um minuto numa sensação eterna.

 

Marcela Rangel escreve às quintas

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Sarah Princesa

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Quando Sarah nasceu, todos acharam que daria uma princesa: a menina é linda, filha do rei e ainda se chama Sarah. Algumas pessoas acham que Sarah princesa tem sempre uma lição a ensinar, mas elas estão enganadas. A garota é dessas que se aprende a amar com o tempo.

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Baliza de Navio e Outras Crônicas

Baliza de Navio e Outras Crônicas

O livro Baliza de Navio e outras crônicas foi escrito originalmente como trabalho de conclusão de curso na minha graduação em jornalismo. Em 2011, ele ganhou o prêmio da Secretaria de Estado de Cultura do Espírito Santo (Secult) na categoria crônica. Desde então, espero com amor (e um pouco de impaciência) por ele aqui na rua.

Natasha Siviero

A autora

Natasha Siviero é jornalista e escreve neste blog crônicas que às vezes dormem e às vezes não dormem e às vezes falam do próprio umbigo, embora o professor recomende que não. Em 2011 ganhou o prêmio da Secult com o livro Baliza de Navio e outras crônicas. Em 2012, publicou Sarah princesa, seu primeiro livro ilustrado.

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