DANIEL. E quero dar um batman ao menino, depois pensei melhor, um batman numa moto. Eu quero mesmo é cantar para ele dormir, então eu cantaria a música da casa muito engraçada que não tinha teto, não tinha nada, e lhe daria um beijinho, e não deixaria nunca ninguém gritar comigo perto dele, nem a mo...

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Daniel

SOBRE: coragem, crônica, daniel, hospital, natasha siviero

Autor: Natasha Siviero

23 de abril de 2014

E quero dar um batman ao menino, depois pensei melhor, um batman numa moto. Eu quero mesmo é cantar para ele dormir, então eu cantaria a música da casa muito engraçada que não tinha teto, não tinha nada, e lhe daria um beijinho, e não deixaria nunca ninguém gritar comigo perto dele, nem a moça do cabelo comprido.

Acabou a visita, ela repetiu. Depois de novo, dali a três ou quatro minutos. Parem de me enrolar, a visita já acabou há vinte minutos. Falava assim mesmo, no plural, olhando para um ponto aleatório, como se fosse um recado ao coletivo, como se eu não fosse a única visita restante.

Dei um beijo na minha amiga, e peguei a direção da porta, quando passei pela cama do menino. Ela me falou dele, disse que está ali desde janeiro, veio com sarna e alguma coisa mais, nunca recebe visita. A mãe mora na roça, tem que trabalhar e tem outros meninos para pôr os olhos.  Ou é outra coisa, não se sabe, mas essa é a história dos meninos feito ele.

Mexi com o carrinho do batman, pequeno, bobinho, desses que a gente ganha de brinde em posto de gasolina.  Ele viu que eu menosprezei o brinquedo, fiz talvez uma cara de pena. Tia,olha aqui, olha aqui, e fez o carro atirar uma flecha imprevisível contra um coringa de papel.

Agora vai embora, tia, vai embora. Como assim, você está me expulsando? Pois você vai embora agora, não vai? Duvido que fica. Vai embora, vai embora. Repetia, como se me desafiando fosse capaz de despertar em mim uma coragem imprevisível como a flecha, uma coragem que ninguém diria que eu pudesse; desafiar a enfermeira e me sentar com ele.

Qual seu nome, perguntei? Não sei, respondeu. Não sabe seu nome?  Insisti. Não sei. “Não sei”, dizia articulando exageradamente boca e me encarando nos olhos – o nome dele, seu segredo, sua barganha, estava ali, tão exposto na plaquinha do paciente, pregada à maca.

A enfermeira do cabelo comprido não tirava os olhos de nós. Quando mais perto ela chegava, mias ele chegava o nariz perto do meu nariz. O menino me olhava com ira, me desafiava: duvido que você fica, duvido.

Então ela chegou perto de mais, mas não tão perto quanto ele. Ela me desafiou com os olhos, mas não tinha a boca dele. Era muito menos intimidadora, a enfermeira, que tocou de leve no meu ombro direito, indicando a saída. Fui em direção à porta de metal, mais ainda olhei para trás.  Ele me seguia com o olho, me encarou dessa vez sem raiva, mas sem esperança. “Tia, é Daniel”.

 

Natasha Siviero escreve às quartas

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Sarah Princesa

Sarah Princesa

Quando Sarah nasceu, todos acharam que daria uma princesa: a menina é linda, filha do rei e ainda se chama Sarah. Algumas pessoas acham que Sarah princesa tem sempre uma lição a ensinar, mas elas estão enganadas. A garota é dessas que se aprende a amar com o tempo.

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Baliza de Navio e Outras Crônicas

Baliza de Navio e Outras Crônicas

O livro Baliza de Navio e outras crônicas foi escrito originalmente como trabalho de conclusão de curso na minha graduação em jornalismo. Em 2011, ele ganhou o prêmio da Secretaria de Estado de Cultura do Espírito Santo (Secult) na categoria crônica. Desde então, espero com amor (e um pouco de impaciência) por ele aqui na rua.

Natasha Siviero

A autora

Natasha Siviero é jornalista e escreve neste blog crônicas que às vezes dormem e às vezes não dormem e às vezes falam do próprio umbigo, embora o professor recomende que não. Em 2011 ganhou o prêmio da Secult com o livro Baliza de Navio e outras crônicas. Em 2012, publicou Sarah princesa, seu primeiro livro ilustrado.

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